quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Preços de shows no Brasil na última década subiram muito acima da inflação e do dólar

O GloboMichele Miranda

RIO - O Brasil virou rota obrigatória das turnês internacionais. O problema, no entanto, é custear todas essas apresentações. Cada vez que o preço dos ingressos é divulgado, a sensação é de que a inflação do país aumentou demais. Em menos de dez anos, a diferença de preços entre dois festivais de grande porte - o Rock in Rio, de 2001, e o SWU , que acontece em outubro - subiu 1.729%. Acima da inflação e do dólar, a alta dos ingressos deixa os fãs apavorados. Os produtores, como de costume, culpam a meia-entrada pelos preços estratosféricos. Mas será ela a única vilã nessa história?

- O dólar subiu muito, a inflação idem, e não é tão fácil trazer um artista para o Brasil quanto levar para os Estados Unidos - justifica Milkon Chriesler, sócio-diretor da The Groove Concept, empresa que está produzindo o festival SWU, o mais novo alvo de reclamações.

Segundo dados do IBGE, a inflação acumulada de janeiro de 2001 até junho de 2010 é de 84,78%. O dólar hoje está, inclusive, mais barato do que naquela época: em janeiro de 2001, variou entre R$ 1,93 e R$ 1,97. Na última sexta-feira, foi cotado a R$ 1,77.

O SWU de Chriesler reunirá em outubro, numa fazenda em Itu (SP), bandas como Rage Against the Machine , Pixies, Linkin Park e Kings of Leon. Os ingressos para cada dia custam entre R$ 240 (pista comum) e R$ 640 (pista premium). Para efeito de comparação, um dia do Rock in Rio, que aconteceu em 2001, custava R$ 35 e hoje, reajustado aos valores da inflação, valeria R$ 64,67. Em Chicago, o Lollapalooza , que teve shows de artistas como Lady Gaga, Strokes e Arcade Fire, custou US$ 90 por dia, algo como R$ 159,30.

- Para os padrões brasileiros, o preço do ingresso do SWU é caro. Mas isso depende do público-alvo do show. Se for a classe A, o valor é indiferente, já que eles têm poder de compra. Classe B até consegue ir, se fizer cortes no orçamento e parcelas. Mas classes C e D nem pensar. Três variáveis provocam esse custo: 20% devem ser destinados à infra-estrutura, 40% às bandas e os outros 40% são o lucro - esclarece Francisco Barone, economista da EBAPE/FVG.


Outro show inflacionado é o do Rush . A banda se apresentou no Maracanã, em 2002, custando entre R$ 60 e R$ 80. Em 2010, o grupo volta ao Brasil com ingressos entre R$ 220 e R$ 500. Procurada pelo GLOBO para esclarecer os custos de produção da apresentação e justificar o aumento do preço máximo em 525% entre um show e outro, a Time For Fun, responsável pela vinda da banda, não quis se pronunciar.

A meia-entrada, por sua vez, mantém o posto de inimiga dos preços baixos, segundo produtores da indústria do entretenimento brasileira.

- A conta, infelizmente, precisa ser feita com base na meia-entrada. Há países, como a Bélgica, que trabalham com meia-entrada, mas o governo subsidia a outra metade. O preço de R$ 640 é para pista premium, que vai ser uma experiência nova, com direito a vista privilegiada, além de estacionamento, restaurantes e banheiros exclusivos - completa Chriesler, que não revela o cachê das bandas. - É confidencial, mas quando vem para festival, o artista cobra mais caro, porque tem que dividir a exposição com outros artistas e patrocínio.

Mas tem quem abrace o benefício da redução em 50% do preço dos ingressos sem prejudicar os que não têm direito à meia-entrada. Shilon Zygielszyper, produtor do Circo Voador, explica a política da casa de shows, situada na Lapa, de fornecer meia-entrada a quem doar 1 kg de alimento e vê o atual cenário econômico de forma positiva.

- Economicamente, as bandas internacionais estão mais acessíveis agora. O Circo trabalha com ingresso popular, por isso tentamos igualar o preço para estudantes e quem não tem meia-entrada, através da doação de alimento, especialmente em shows internacionais. Nosso perfil não é ficar milionário, é proporcionar entretenimento. Geralmente, os artistas recebem 60% da bilheteria. O resto fica para nossos gastos com luz, som, divulgação - diz Zygielszyper.

Durante uma entrevista coletiva sobre o festival, a TotalCom - uma das produtoras do SWU - afirmou que os patrocinadores vão bancar o evento e a proposta de conscientização da sustentabilidade. O lucro viria dos ingressos vendidos.

Compare os preços:

Rush (2002) - Maracanã - Entre R$ 60 e R$ 80 / Rush (2010) - Apoteose - Entre R$ 220 e R$ 500

Rock in Rio (2001) - R$ 35 / Pixies + 12 bandas (2004) - R$ 80 / Planeta Terra - 2010 - R$ 160 / SWU - 2010 - R$ 640

A-ha (2002) - Credicard hall (SP) - R$ 20 a R$ 120 / A-ha (2009) - Citibank Hall (RJ) - R$ 70 a R$ 400

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